Dona Baratinha 

 

Narrador

Era uma vez uma Baratinha...

Que morava numa quartinha...

Sua vontade era tocar piano!...

Desde criança, sonhava em ser artista,

Mesmo que um dia, fosse uma flautista...

Iria tocar e se alegrar com uma flauta soprano.

 

Baratinha

— "O que devo fazer para aprender a tocar um instrumento?...

Se soubesse que tenho dom... Iria aliviar esse sofrimento...

Vou arregaçar as mangas e vou à luta!...

Nada me impedirá de ser artista; quero cantar e ser feliz!"

  

Narrador 

Ao passar em frente a uma escola de música...

Dona Baratinha encantou-se com o som da mágica

Valsa, que soava pelos corredores, em sua direção;

E resolveu entrar, para espantar aquela tristeza,

Que a atormentava tanto, por ter tanta incerteza,

Se podia aprender a tocar para alegrar sua emoção.

  

Logo ao entrar na escola, foi depressa ao corredor!...

Embevecida pela música... deu de cara com o Diretor...

E perguntou-lhe se poderia ter umas aulas de piano.

Queria matricular-se, mas o Diretor foi tão arrogante!...

E disse-lhe:

  

Diretor 

— "Calma, dona Baratinha, não fique fumegante...!

Não é bem assim! Música não é p’ra qualquer serrano!

 

A meu ver, tu não tens noções básicas de música,

E já queres tocar piano?... Nem entendes de acústica!...

E tem mais... Para fazer música, terás que ter talento!"

  

Narrador 

Toda aquela alegria, transformou-se em desventura...!

E a Baratinha saiu desolada, com as mãos na cintura...

E pensou:

  

Baratinha 

— "E agora?... Nem ao menos tenho instrumento!"

  

Narrador 

Com lágrimas nos olhos, retornou para a sua quartinha —

Onde era seu refúgio!... Naquela mesma noite, a Baratinha

Sonhou que estava bailando, cantando e tocando piano!

Ao acordar, recordou todo aquele transtorno que a deixara

Entristecida... Mas, logo se animou e saiu da sua câmara...

E foi a uma loja mais próxima comprar uma barra de cano.

  

Ao chegar na loja, já pediu abatimento: E disse:

  

Baratinha 

— "Quero fabricar meu instrumento!"

  

Narrador 

O vendedor não sabia o que dizer;

E perguntou novamente:

  

Vendedor 

— "A senhora quer fabricar o quê?... Vá-se embora,

Dona Baratinha, aqui não tens com o que fazer!"

  

Narrador 

Por um momento, ela ficou pensativa;

E exclamou:

  

Baratinha 

— "Tenho memória auditiva,

Não preciso que me digam o que tenho

Ou o que não tenho que fazer para poder

Resolver esse problema — sei escrever!...

Formei-me na Faculdade de Desenho!"

  

Vendedor 

— "Mas a senhora está muito arrogante!...

Chamarei o meu neto que é ajudante,

E vai levá-la à seção das ferramentas —

Para ajudá-la no que for preciso.

Meu amado neto, chama-se Narciso!

Não vá fazer as coisas pelas ventas."

  

Narciso 

— "Senhora, estás disposta a continuar?...

Não gostaria que ficasse nada no ar!

Onde já se viu tamanha desventura?...

Onde já se viu fabricar um instrumento

Com barra de cano?... Faço abatimento...,

Só não me venha com outra loucura!"

  

Narrador 

A Baratinha, decidida a fazer o piano...

Saiu da loja, contente, com a barra de cano;

Mas, não entendia nada sobre música...

O que será que a Baratinha tinha em mente,

Quando resolveu mostrar à toda essa gente,

O que era capaz de fazer com a metafísica?

  

Na volta para casa, encontrou dona Cigarra,

E lhe comunicou que iria fazer uma gambiarra...!

Curiosa p’ra saber o que a Baratinha ia fazer —,

Convidou-a para ir à sua casa, bem perto dali.

No meio do caminho, resolveram comer caqui;

Lambuzaram-se e degustaram-no com muito prazer.

  

Agora, já bem alimentadas, nesse acampamento,

Revelou o que imaginara:

  

Baratinha 

— "Vou fazer um instrumento!"

  

Cigarra 

— "Como é que é?... Estava distraída, pode repetir?...

Um instrumento? Oh!... Que maravilha... Amiga!

Você sabe que sou professora e gosto de cantiga...

A Música é a beleza da alma e faz-nos refletir."

  

Narrador 

Encantada com a idéia da Baratinha, a Cigarra

Prontifica-se a ensinar notas musicais — que barra!...

Mas, precisavam de espaço para montar uma banda.

Na euforia dessa imaginação, de que tudo daria certo...

Já pensaram em fazer turnês pelo mundo incerto...

E foram para a oficina, que ficava ao lado da varanda.

  

Martelada e martelada o dia todo, noite a fora...

A vizinhança já não aguentava tanta percussão — ora,

Não era p’ra menos... Quem aguentaria, aquele baticum

Fora de tempo, noites a fio, no mesmo som arrítmico?

Depois de muito esforço, concluíram um legítimo

Instrumento — era uma campana cromática — bum, bum, bum...

  

Tóin, tóin, tóin... A afinação estava perfeita aos ouvidos da Cigarra...

Mas, estava faltando alguma coisa — as aulas de fanfarra.

Como poderia a Baratinha sair tocando na avenida...

Sem ao menos ter noção do que significava tocar?

Mas o seu desejo era maior que tudo e, queria setuplicar

As notas musicais que as deixava inebriada e acolhida.

  

Cigarra 

— "Começaremos pela escala de Dó; essa não tem acidente!

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó... É muito fácil e ficarás contente!

Logo aprenderás a solfejar outras escalas musicais.

Tenho um coral já há vários anos, e precisamos de cantora

Para completar o naipe das vozes femininas... Embora,

Nosso coral seja pequeno, cantamos obras imortais!"

  

Baratinha 

— "Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó... Dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó...

Aprendi a escala, dona Cigarra; agora vou mudar a escala de Dó!"

  

Cigarra 

— "A partitura é muito importante, e terás, também que tocar lendo;

É tão maravilhoso e mais fácil aprender a tocar por música...,

E não somente, aprender a tocar de ‘ouvido’ — assim é a metafísica!"

  

Baratinha 

— "Ah! Quando já estiver tudo decorado — farei um show, tremendo!"

  

Narrador 

Logo nas primeiras aulas, já ganhara destaque no coral...

Sua voz era contralto e destacava-se no madrigal!...

Na primeira apresentação, foi convidada p’ra ser solista.

A Baratinha solfejava feliz:

  

Baratinha 

— "Dó, ré, mi, fá sol, lá, si..... Dó".

 

Narrador 

Muito animada, afinal, era a sua estréia, e era o seu xodó,

Sentir o palco — desde novinha... O seu sonho de ser artista!

  

Dona Baratinha se deu muito bem como artista...

Além de ser cantora... Também tinha pinta de jazzísta.

Fez uma turnê, lá nos States, e foi muito aplaudida!...

Tudo foi como um sonho que se transformou em glória!

Não esqueça, minha amiga — essa é a moral da história!...

Nunca desista de seus sonhos, mesmo não reconhecida!

  

(Tutti)

— "Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó... Dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó...  

Dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó.

  

Paulo Costa e Madalena Romagnolo



Pacco *00h38






Formig'amiga

 

Longe de casa e desesperada,

A formiguinha ajudava su’amiga desvanecida.

Lutava com todo o seu amor e dor para salvá-la...

Angustiada e consternada, a formiguinha

Suplicava ajuda a su’amiga desprovida...

 

Rondava p’ra lá e p’ra cá,

P’ra cá e p’ra lá sem parar...

 

A formiguinha circulava ao redor,

Com dó de su’amiga, que estava

Imobilizada e atordoada pela dor.

 

No leito dessa infinita e sombria tristeza...

A formiguinha clamava e chorava sem cessar.

Já não havia mais força para levar su’amiga...

Sua dor era tamanha que não sabia se subia,

Se descia; se descia ou se subia a ladeira d’agonia.

 

Rondava p’ra lá e p’ra cá,

P’ra cá e p’ra lá sem parar...

 

Cai uma folha do céu!

 

"Ó abençoada folha que cai...

Ó dor amargurada que não sai...

Ó folha bendita que nos traz tanta alegria...

Ó folha bondosa que o destino guia...".

 

A folha as levava cuidadosamente, no meio do pântano...

A formiguinha sofria mais que a dor de su’amiga, no entanto,

Acariciava-a com tanta simpatia, com tanta euforia...

Que su’amiga lhe sorria, e sumia a dor dess’agonia.

 

Chegando ao formigueiro, foi ligeiramente socorrida...

A formig’amiga corria e agradecia à folha que caíra...

Muito agradecida, venerava a bondosa que as salvara —

No meio da mata — do tormento que afligia su’amiga.

 

O vento soprara a folhagem que voou serena...,

Na essência dessa natureza, oh!... formosa açucena...

A semente gerou a árvore, d’onde brotou a flor...,

A flor que estancara a dor do seu amor.

 

Paulo Costa



Pacco *16h43






 


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Pacco *12h37





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